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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Um Filme Tao Grandioso Quanto Um Sonho



Inception conquistou o publico e a critica, sendo descrito como “fodao” por um, e “obra-prima” pelo outro.

Christopher Nolan demonstra que é um otimo diretor e tem muito controle sobre as cenas, nos entregando cenarios e sequencias bem bonitos. Além disso, podemos ver que ele se esforçou para criar um roteiro e trama inteligentes e sair do mainstream de blockbusters de açao que sao so explosoes e pronto. Nessa questao, concordo com o que as pessoas tem dito sobre esse ser o começo dos blockbusters de autor, e acho isso algo muito bom. Se chegarmos ao ponto que os filmes de sucesso vao ter de fato boas direçoes e mais personalidade havera uma consideravel melhora de qualidade no cinema hollywoodiano.

Mas eu so tenho um paragrafo elogioso a entregar a Inception. É um filme interessante que deve ser visto, mas nao é nem « fodao », muito menos uma « obra-prima kubrickiana », como ja li.

Por tras de todo o novo mundo elaboramente criado e a tal historia rapida e complexa, na verdade nos deparamos com um material muito didatico e, mesmo que nao pareça, conservador.

Personagens fracos e todos com uma especifica razao de ser (Ellen Page é o quadro negro para que nos ensinem como tudo funciona, cada membro da equipe so existe para executar as suas funçoes e Marion Cotillard esta la apenas para aumentar o perigo e dar ao filme um lado sexy e romantico), o que gerou interpretaçoes fracas tambem, salvo DiCaprio, que esta bem correto e faz o possivel com o seu personagem ruim.

Mesmo que Nolan queira nos estontear com sequencias de tirar o folego e nos levar para um universo paralelo, ele nao foi ousado o suficiente para deixar a historia fluir normalmente, e colocou milhares de cenas explicativas para tudo. Nos conta, como num filme infantil da Disney, o modo de se infiltrar na mente de alguem, porque o DiCaprio era complexado, e todo o seu background. Ainda abusa de flash-backs, ja que resolveu ir contando a historia meio que em retalhos para dar um ar ainda mais confuso, fazendo com que o espectador so entenda as coisas depois de ter visto cenas relacionadas a elas.

Temos, afinal, uma fabula de retorno à familia. Bem, na verdade nao. Inception quer ser um thriller psicologico de açao com um lado romantico-familiar, e entao engole goela a baixo quinhentos temas e idéias sem nem mastigar. Nolan pode dirigir cenas muito bem, mas nao é um maestro de conflitos como Otto Preminger, e Inception mesmo tratando de menos temas que Anatomia de um Assassinato, nao sabe sintetiza-los, e fica tudo meio frouxo. Isso ainda chama atençao para um roteiro nao tao bom assim, e mais ainda para o seu conservadorismo em relaçao a conflitos gerais e entre os personagens.

Aos meus olhos, nao adianta desfarçar. Inception tem uma embalagem bonita e chamativa, mas seu conteudo é meio oco. Um filme psicologico deve ter no minimo personagens e conflitos bem desenvolvidos e complexos, em vez de se apoiar em frases de efeitos e dar um significado exagerademente profundo a tudo. Ele é mais uma grande brincadeira com efeitos especiais e o amplo universo da mente, o que impressiona a muitos. Mas, na minha opniao, uma verdadeira obra-prima, um roteiro de fato inteligentemente elaborado esta mais proximo de um filme do Truffaut sobre a vida cotidiana do que algo pretensioso que morde mais do que consegue mastigar.

Para disfarçar o banal final feliz, Nolan ainda fala “espere, ainda nao acabou”, e fecha a historia deixando-a em aberto, um recurso que eu gosto, mas que foi usado mais para dar um golpe final no publico e deixa-lo mais tonto com a incerteza de tudo, nao porque era necessario.

Esse é apenas o segundo filme que vejo do Nolan, mas o acho cheio de potencial, e acredito que ele possa ser um grande diretor no futuro. É preciso, no entanto, mirar até onde alcança. E para fazer uma “obra-prima kubrickiana”, nao basta apenas saber lidar com imagens, mas tambem com cada detalhezinho da historia.

Diria que Inception é tao grandioso quanto um sonho. Pode ser impressionante no momento em que é assistido, mas no fim das contas é um conjunto de muitas coisas que nao fazem muito sentido e nao tem nenhuma importancia de fato na sua vida. Pelo menos nao na minha.