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Eu tenho uma teoria que na verdade nunca uso, até porque acho que nunca acreditei muito nela.
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A teoria é de que praticamente qualquer historia pode dar um um bom filme. Tudo depende da qualidade de direçao, atuaçao, roteiro e narrativa. A idéia é que um filme é muito mais que a história dele, e que a sua trama pode ser muito importante ou quase secundária. Basicamente: a historia nao é o filme, e sim, uma parte dele. Mas nunca tinha visto nenhum filme que me ajudasse com essa idéia, entao nem me lembrava muito dela.
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Mas num belo dia ensolarado de sol, quando coelhinhos pulavam ao redor do arco-íris, assisti Quando Fala o Coraçao, e percebi que talvez essa minha teoria faça até algum sentido.
O Coraçao só nao é um exemplo perfeito porque a história é tao fraquinha e tao carregada de baboseiras psicologicas que ele nao vira um bom filme. Mas detalhes, detalhes... quem liga para eles?
Em primeiro lugar, gostei muito das atuaçoes. Ja gosto da Ingrid Bergman desde quando vi Casablanca, mas nesse filme a atuaçao dela me chamou mais atençao que o normal. Quanto ao Gregory Peck, só tinha visto A Princesa e o Plebeu com ele ha uns anos, entao nem me lembrava direito. Diferentemente do Montgomery Clift, que eu achei muito bonito e com muita presença mas nao um ator genial, o Gregory é muito bonito, tem muita presença e é um excelente ator. O personagem dele tem todos os problemas psicologicos que voce puder imaginar e mais alguns ainda. Enfim, tinha tudo para ficar muito caricato e estranho, mas o Gregory conseguiu fazer esse ser que vira e mexe fica fora de si de uma forma muito contida. Para mim, os melhores atores são aqueles que conseguem interpretar um personagem meio doido, que vive surtando ou é meio fora de si e continuarem sendo contidos. O Gregory é o exemplo perfeito para isso nesse filme.
Quanto à historia, eu achei muito fraquinha. Como eu disse, é uma metralhadora de explicaçoes psicologicas, e tem o negocio de interpretar o sonho que eu acho bem tosquinho. Mas é por isso mesmo que ele é um bom exemplo para a minha teoria. A historia é ruim, mas na minha opiniao, ela nem é tao importante assim no filme.
Ele tem uma narrativa interessante, acho que um pouco no estilo da do Interlúdio, só que nao tao boa quanto.
Tem a cena horrivel em que o Gregory Peck descobre porque tinha complexo de culpa e a Ingrid Bergman grita "agora voce descobriu o que te assombrava, voce está livre!" de uma forma bizarra, amadora, como se fosse uma adolescente numa peça de teatro da escola. Mas por outro lado a cena em que o Gregory desce as escadas num momento em que está fora de si com uma navalha na mao é muito boa. Meio assustadora de um jeito meio Crepúsculo dos Deuses, aquela coisa levemente macabra... só que Crepusculo dos Deuses é mais melancólico, e essa cena nao é. Tambem gostei muito da posiçao da camera no final dessa cena (que vemos o Gragory bebendo um copo de leite, mas é como se nós estivessemos bebendo o leite, é do nosso ponto de vista. E à medida que ele vai bebendo, o leite vai tampando o psicanalista que esta na frente dele) e da cena em que o verdadeiro assassino se mata, e tambem vemos tudo como se fossemos ele, a arma vira para o público, e atira.
E a direçao é muito boa tambem, como é em quase todos os filmes do Hitchcock.
Só nao é um exemplo perfeito porque a teoria é de que praticamente qualquer historia pode dar um bom filme, e essa está no limite mesmo. Mas como os outros elementos dele sao de alta qualidade, é um filme quaaase bom. Quem é chegado em psicologia vai gostar mais. Mas como eu nao sou chegada, as referencias infinitas a Freud me irritaram um pouco bastante.