A primeira vez em que ouvi o nome John Hughes foi na musica Seventh Grade Dance da banda Smash Mouth que falava: I feel like I'm in some John Hughes film. Para entender melhor a letra, fui pesquisar quem ele era. De todos os seus trabalhos reconheci apenas o Esqueceram de Mim, que ele so produziu. Mas nunca tinha ouvido falar em nenhum dos seus filme dos anos 80. Continuei sem entender muito a musica.
Pouco tempo depois, o diretor morre aos 59 anos. Com isso, li alguns artigos sobre ele e comecei a entender melhor a sua importancia. Em fevereiro tivemos um dia de aula que era meio bagunça, e a minha professora de ingles (que by the way nunca mais falou do tal irmao que trabalhou em Avatar) passou para a gente metade de O Clube dos 5. Curiosamente, boa parte das pessoas ja conheciam o filme e gostavam muito.
Depois disso assisti 3 de seus filmes. De inicio o achei meio bobinho, mas agora estou começando a respeita-lo, e até a adimirar o seu trabalho.
Gatinhas e Gatoes

Essa foi na verdade uma boa escolha para ser o meu primeiro filme inteiro do Hughes. Ruim o suficiente para nao me deixar com expectativas para os outros, e bom o suficiente para nao fazer com que eu desista de assistir mais.
Mas basicamente, ele é um filme bem fraco. Tendo como titulo original Sixteen Candles (16 velas), é de se esperar que o filme seja todo em torno do déceimo sexto aniversario da protagonista. Errado. Se passa em mais de um dia, um deles é sim o aniversario dela, mas em vez de se focar nas expectativas da personagem e todo o endeusamento por volta do aniversario de 16 anos, a historia é mais sobre crises gerais dela, com coadjuvantes demais e muitos sub-plots. O resultado é um roteiro bem bagunçado, excessivo, e consequentemente, cansativo. Alem de estarem em uma quantidade muito grande, os personagens tambem sao bem chatinhos e estereotipados.
Apesar de tudo, o ele é assistivel, mesmo sem ser muito agradavel. A principal qualidade dos filmes de Hughes é a facil identificaçao que os adolescente sentem com eles. Nesse caso eu diria que o que ganhou a simpatia deles foi a mudança de papeis entre os personagens, como o fato da menina ficar com o cara popular no final. Se isso hoje é o cliche dos cliches em filmes para adolescente, naquela época provavelmente era novidade.
Sendo um dos principais filmes do Hughes (empatado com Curtindo a Vida Adoidado), ele me decepicionou bastante.
Nao nego que a ideia seja bem boa, nem que ele tenha uma conexao com os adolescentes muito grande. Nesses pontos ele se sai muito bem. Mesmo tendo personagens muito estereotipados, e uma mensagenzinha de esquecer as diferenças, ele consegue trabalhar esses elementos bem o suficiente para que nao fiquem muito caricatos. Mas o que realmente conquista os adolescentes nesse filme é a ideia de que todos eles tem mais ou menos os mesmos problemas e crises e que eles nao estao sozinhos. Isso é deixado tao claro que tem ate uma sequencia de cenas com os cinco personagens dançando ao som da musica « You Are Not Alone”.
O que me leva as razoes pelas quais eu me decepcionei com o filme. Todas elas se relacionam a uma coisa : falta de sutileza. Todas as ideias apresentadas tem que ser claramente estabelecidas, nada é discreto ou construido com calma. Boa parte das cenas sao meio simbolicas, tendo como unica funçao mostrar tal caracteristica sobre tal personagem. O uso da trilha Sonora com as imagens é muito mal feito. Da pra ver que se esforçaram, mas muitas vezes uma musica começa a tocar para estabelecer um certo clima, e logo acaba do nada, deixando as transiçoes de cena meio quebradas.
O filme é, no entanto, discreto em uma pequena coisa: a incerteza se eles vao continuar amigos na segunda-feira, quando estiverem na escola com os seus respectivos grupinhos, ou se tudo vai voltar ao normal depois dessa detençao que a principio mudou as suas vidas. Nao sei se Hughes pretendia deixar isso em aberto dando ao filme um lado cinico, mas a decisao de acabar a historia nesse ponto, sem ter um post-plot mostrando o que aconteceu depois, é sabia.

Se eu nao estivesse em um lugar sem aparelho de DVD (sou tao nomade que ja morei em 3 apartamentos diferentes so em Montreal) provavelmente nao teria visto esse filme tao cedo. A questao é que estava procurando coisinhas para baixar, e Ferris Bueler apareceu na minha listinha infinita de filmes para assistir. O escolhi porque achei que seria algo leve e minimamente make-you-feel-good.
Nao poderia estar mais certa. Dos dois outros filmes filmes que levantaram o meu animo nesse ano (Conta Comigo e Alta Fidelidade), esse é com certeza o mais agradavel, mesmo que nao seja o melhor.
Se nao fosse por ele, talvez Hughes ainda nao tivesse o meu respeito. Assim como os outros dois filmes que citei acima, o que me conquistou no Ferris Bueler foi a simplicidade e falta de pretensao. Sem contar, é claro, com o proprio Ferris Bueler. Matthew Broderick nao é bonito, mas tem carisma e charme simplesmente impressionantes. Talvez sua incrivel performance seja mais por um casamento perfeito entre ator e personagem, mas acho que é mais do que isso. Ele realmente tem uma presença de cena muito forte e uma dicçao invejavel.
A historia, assim como todo o resto, é a melhor d’entre esses tres filmes do Hughes. Um menino resolve matar aula pela milésima vez no ano e nos somos pessoalmente convidados para passarmos o dia com ele. Durante o filme Ferris conversa conosco varias vezes, mas o recurso de narraçao nao é usado, so a meta-linguagem é, nos dando o papel de confidentes.
Alem disso, o roteiro tem um ritmo excelente. Tudo vai simplesmente acontecendo, de uma forma extremamente natural. As coisas impossiveis (ex: a popularidade absurda de Ferris) sao feitas com cuidado e tratadas como se fossem algo normal. Nao ha espaço para reclamar que era impossivel escapar de tal situaçao. A cena que serve melhor de exemplo é quando Ferris canta Twist & Shout no meio de um desfile na rua. É como se fosse um filme de fantasia, so que sem magica.
